sábado, 21 de março de 2009

Carlos Drummond de Andrade




Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.


Carlos Drummond de Andrade, Em: Amor Natural.

3 comentários:

Santos disse...

É mais um lindo poema de Drummond. Beijos

meus instantes e momentos disse...

ótimo teu blog, foi bom conhecer.
Tenha um lindo domingo.
belo post.
Maurizio

MARCOS disse...

relembrei dos poemas do Drummond. havia esquecido destes... Obrigado.
é extase...leio, leio e me sinto dentro. viva a palavra!