domingo, 28 de dezembro de 2008

Luis de Camões

Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/Mudam-se_os_tempos,_mudam-se_as_vontades"
Categorias: Luís Vaz de Camões

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Arnaldo Antunes e Nando Reis

" ... Os anos se passaram enquanto eu dormia..."

Fernando Pessoa



"...O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos ..."

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Férias em Lisboa


"Ah! e as viagens, as viagens de recreio, e as outras..."


"Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar."

É isso, estou indo a Lisboa. Quando o dia
acordar estarei pisando na terra de Fernando
Pessoa. É a realização de um grande sonho.


"Há quanto tempo, Portugal, há quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
Não se distrai de ti, nem bem nem tanto."

Não postarei diariamente, mas farei o possível
pra não me manter tão longe daqui, afinal, esse
é meu vício atualmente.


Não por acaso, escolhi esses versos do grande
poeta para registrar esse momento da minha vida.


"Boa viagem! Boa viagem!
Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor
De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,
E restituir-me à vida para olhar para ti e te ver passar.
Boa viagem! Boa viagem! A vida é isto..."

Imagem: google

Textos: Fernando Pessoa

E. E. Cummings


Poema cantado por Ana Carolina


"Eu gosto do seu corpo
Eu gosto do que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quando lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar"


Imagem: Google

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal


"Meus amigos,
Que neste Natal, Jesus
Faça nascer novamente
No coração de cada um de nós:

A INOCÊNCIA
Para sabermos ser transparentes,

O CARINHO
Para cativarmos novos amigos,

A GRATIDÃO
Para valorizarmos a vida em plenitude,

O PERDÃO
Para reconciliarmo-nos no amor,

A COMPREENSÃO
Para sabermos perdoar

O ENCANTAMENTO
Para apaixonarmo-nos pela busca de felicidade,

A SABEDORIA
Para respeitarmos os pontos de vista do outro,

A SOLIDARIEDADE
Para aprendermos juntos a construir caminhos,

A FÉ
Para acreditarmos também no outro,

A PAZ
Para ajudarmos a construir sempre,

A CORAGEM
Para sabermos retomar nossos sonhos,

A VONTADE DE AMAR
Para sermos felizes!

E bem lá no fundo da minha alma

Quero neste Natal armar uma árvore de raízes profundas dentro do meu coração e nela pendurar em vez de presentes o nome dos meus amigos... A melhor prenda que se pode receber pelo Natal é a AMIZADE, longe ou perto, na multidão ou no silêncio, nos bons e
maus momentos". Que 2009 seja
abençoado com abundância de amor, saúde, dinheiro e felicidade.

Sintam- se abraçados .

António Lobo Antunes

(...) Penso no absurdo de escrever. De estar a escrever quando podia estar com os amigos, ir ao cinema, ir dançar que é uma coisa de que gosto... mas não, um tipo está ali e é um bocado esquizofrénico. (...) Há sempre uma parte subterrânea nas obras de arte impossível de explicar. Como no amor. Esse mistério é, talvez seja, a própria essência do acto criador. (...) Quando criamos é como se provocássemos uma espécie de loucura, quando nos fechamos sozinhos para escrever é como se nos tornássemos doentes. A nossa superfície de contacto com a realidade diminui, ali estamos encarcerados numa espécie de ovo... só que tem de haver uma parte racional em nós que ordene a desordem provocada. A escrita é um delírio organizado."

domingo, 21 de dezembro de 2008

José de Alencar

"...Mas a senhora lê e eu vivia; no livro da vida não se volta, quando se quer, a página já lida para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão. Os acontecimentos nos tomam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido..."
- José de Alencar, em Luciola.

Álvaro de Campos

"...Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira..."

Manuel Bandeira


Desencanto

"Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre."
Imagem: Google.

sábado, 20 de dezembro de 2008

E.E. Cummings



"Querida,

porque faz tempo que não lhe escrevo e porque existem -sempre- coisas a ser ditas. Porque você é a menina que me irrita, bárbara e tola, e me devassa. Porque são lindos teus cachinhos e teus olhos.

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas)

porque são calmas as tuas mãos, sendo tu inteira desastrada e aflita e mesmo quando me retraí - e assim quedo, combalida - mesmo quando diz que eu sou sem graça e não contem, nos olhos, a fúria; mesmo então é a mulher das minhas noites; pra quem já fui mimada e perturbada, um bicho perigoso, o animal mais acuado. Quem me ouviu os desastres e desatinos, as manhãs de ressaca, as tardes de mau-humor e mesmo quando vazios, queria saber dos meus dias. Mulher que já me viu, assim derrotada, aos pés de uma escada pra cumprir penitência e que acompanha todas minhas tentativas de samba, porque eu queria mesmo, chapéu branco, navalha no bolso, era ser mão que empunha pandeiro e tu ias dizer aos outros que a tua sina era a miséria que encontrou nos meus olhos: ser mulher de malandro.

Meu Amor, tu és. Ainda não sabe? "

Texto: tradução de Augusto de Campos.
Imagem: Ava Gardner, Google.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ferreira Gullar



"... Eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta ..."

Trecho do Poema Sujo, de
Imagem: google

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

"...Pelo menos eu sabia quem era quando acordei hoje de manhã,

mas acho que, desde então, mudei várias vezes..."


"... Como tudo é esquisito hoje! E ontem tudo era extamente como de costume! Será que fui eu quem mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas se eu sou a mesma, a próxima pergunta é: 'Quem é que eu sou?'. Ah, essa é a grande charada! "


"...Alice:

"por favor, o senhor poderia me dizer como eu saio daqui?"

gato:

"depende para aonde você quer ir."

alice:

"bem.. eu não sei.. não importa, qualquer lugar para sair daqui."

gato:

"para quem não sabe pra onde ir, todos os caminhos servem"

(o gato some e fica só o sorriso)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Clarice Lispector

"... Me dá um carinho
pela raça humana.Amar
os outros é a única
salvação individual
que conheço. Ningúem
estará perdido se der
amor e às vezes receber
amor em troca..."

Amor de Colombina



Arlequim : Um desejo
Pierrot : Um Sonho
Colombina: A Mulher

COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão:

Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coração balanço:

A Arlequim:

O teu beijo é tão quente...

A Pierrot:

O teu sonho é tão manso...

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,
porque a história do amor pode escrever-se assim:

PIERROT
Um sonho de Pierrot...

ARLEQUIM

E um beijo de Arlequim!

Imagem: google

Nando Reis e Cássia eller

"... Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu ..."

Eu não quero mais mentir
Usar espinhos
Que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno
Que me atraiu
Dos cegos do castelo
Me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, um lugar
Pro que eu sou...

Eu não quero mais dormir
De olhos abertos
Me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver
Venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou...

E se você puder me olhar
Se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar...

Eu vou cuidar
Eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Do seu jardim...

Eu vou cuidar
Eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar
E de você e de mim...

Eu não quero mais mentir
Usar espinhos
Que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno
Que me atraiu
Dos cegos do castelo
Me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, um lugar
E pro que eu sou
Oh! Oh! Oh! Oh!...

E se você puder me olhar
Se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar...

Eu vou cuidar
Eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Ah! Ah! Ah! Ah!
Do seu jardim...

Eu vou cuidar
Eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar
E de você e de mim
Oh! De mim!
E você e de mim
E de você e de mim...



E para matar a saudadede Cássia Eller,

" ... O que vc esta fazendo ?
milhões de vasos sem nenhum flor? ..."


" ... Eu trocaria a eternidade por essa noite! ..."



























'

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Eugénio Andrade



"É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer."
Imagem: Elisabeth Taylor, google.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Los Porongas


"Nascida em Rio Branco, no Acre, há quatro anos e atualmente residindo em São Paulo, a banda Los Porongas, tem sido apontada pela crítica como uma das novas revelações do rock brasileiro. Seu novo CD, homonimo, tem sido muito bem recebido pela crítica especializada, com destaque em veículos como Folha de São Paulo, Estado de Minas, Correio da Bahia, Diário do Nordeste, Diário do Pará, Programa Alto-Falante, entre outros.

Lançado pelo selo Senhor F Discos, o CD foi gravado e produzido por Philippe Seabra (da Plebe Rude), no Estúdio Daybreak, em Brasília, e foi listado entre os 25 melhores discos brasileiros de 2007 na Revista Rolling Stone. Em sua página do myspace a banda mostra-se eclética com suas influências musicais, citando bandas como: Beatles, Radiohead, Kula Shaker Ocean Colour Scene, Moby, Nirvana, Gilberto Gil, Los Hermanos, The Smiths, Oasis, The Yeah, Yeah, Yeahs, Stone Roses, Vanguart, Superguidis, Chico Science e Nação Zumbi. A banda é formada por Diogo Soares (voz), João Eduardo (guitarra), Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria)."

Frida Kahlo


Para que pés, se tenho asas para voar?


"Porque é que lhe chamo Meu Diego?
Ele nunca foi e nem será meu.
Ele pertence a si próprio."


"Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.''

"Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor"

"Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação."

Imagem: Obras de frida Kahlo, tirada da net.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Miguel Torga



TRANSFIGURAÇÃO

"Tens agora
outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas,
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...

Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes."
Imagem: sophia Loren, tirada da net

sábado, 13 de dezembro de 2008

As Chicas

Assisti a um show maravilhoso hoje: As Chicas. Vale a pena guardar no baú.

Caio Fernando Abreu


"Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mario Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Imagem:Caio Fernando Abreu, tirada da net.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ana Cristina César







Fagulha

"Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal."



imagem:Ana Cristina César , tirada da net

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Wally Salomão


POST-MORTEM

"Um cavalo-marinho mergulha em seus círculos de corais

mas em sua mente só revela a atualidade do belo.

O passado pode estar abarrotado de chateações

mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores filmes

e amor e gravidez no bojo do macho

e horas infindas deitado nas areias

especulando nuvens

que se esgarçam ao sabor e ao deslize das figuras.

Um gosto permanecer aqui extasiado

e sem querer comparecer a nenhum vernissage

cansado dos artistas

que dão aos seus quadros a última demão de verniz

e permanecer lasso das exposições e dos museus a visitar

e do dernier cri

esquecer os pacotes de encomendas à Amazon Books

e fugir dos seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos.

Quase morrer é assim:

uma cada vez crescente ojeriza com a "vidinha literária"

de par com a imorredoura memória de certas linhas,

por exemplo,

que durante o resto de tempo que me é concedido viver

e na hora H da morte,

estampada na minha face esteja a legenda:

O que amas de verdade permanece, o resto é escória.

Sonhar com Provenças e Venezas e Florenças.

Rever Piero della Francesca

e a Essaouira de meu amigo Garbil, o boxeador.

E a vista de Delft de Vermeer.

A Barcelona do poeta-clochard-palhaço Joan Brossa.

A cena de New York, minha e de todos e de Ashbery

e de Frank O'Hara e de ninguém.

Sobem fiapos da infância de um tabaréu:

ora eu era

uma piaba nadando por entre bancos de areia do Rio das Contas

ora eu era

um acari das locas do Gongogi - rio cheio de baronesas.

Idade de ouro fluvial, plástica, flamante.

Fogueira gigante das noites de São João. Fogos-de-bengala.

Eu sozinho menino e o Amadis de Gaula

e os outros todos principais cavaleiros

e as outras todas principais damas

que povoavam as varandas, os pastos,o curral,a balsa, a chácara,

as pedras,os capins e as matas da Coroa Azul do raro Balito.

Convive-se com uma criatura sem imaginar sequer de que reino provém.



Zelar pelo deus Treme-Terra que meu coração devolveu.

Não cortejar a morte.

Não perambular pelos cemitérios

nem brindar o luar patético

com caveiras repletas de vinho tinto seco

como um Byron-Castro Alves gótico e obsoleto.

Sereno e cabeça dura - testa ruda -

mirar de frente da caveira

e as tropas de vermes de prontidão

(como observo vermes dentro de um pêssego)

Mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte.

Gozar,gozar e gozar

a exuberância órfica das coisas

em riba da terra

debaixo

do

céu."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Beirut - Elephant Gun

Assistam!
É lindo de doer!



Beirut é uma banda formada em 2006 em Santa Fé, Estados Unidos, por Zach Condon. São fortemente influenciados pela música folk, usando instrumentos como violinos, violoncelos, órgãos, pianos, Ukeleles, Congas, clarinetes, bandolim, guitarra, trompetes e diversos outros.

Do livro: Afrodite, de Isabel Allende


"Seu hálito é como mel aromatizado com cravo;
Sua boca, deliciosa como uma manga madura.
Beijar sua pele é como experimentar o lótus.
A cavidade do seu umbigo oculta uma profusão de especiarias.
Que prazeres repousam depois, a língua sabe,
Mas não pode dizer.
(Srngarakarika, Kumaradadatta/ século XII)

A mulher é como uma fruta que só exala sua fragrância quando a esfregam com as mãos. Tome, por exemplo, o manjericão: a menos que o aqueçamos com os dedos, ele não emite seu perfume. E você sabe, por exemplo, que se o âmbar não for amornado e manipulado, ele retém o seu aroma? A mesma coisa acontece com a mulher: se não a animar com seus beijos e carícias, com mordidas nas coxas e abraços apertados, você não obterá o que deseja; não experimentará prazer quando ela compartilhar seu divã, e ela não sentirá afeto por você.
(O jardim perfumado)


Tu te aproximas de mim
com o cheiro
da grama matinal
recém-cortada:
meus mamilos endurecem.
(Haiku de Yuko Kawano)

Perfumei minha alcova
Com mirra, aloé e canela.
Vem, embriaguemo-nos de amores até a manhã,
Fartemo-nos de amores.
(Provérbios 7: 17-18)

Teus brotos são paraíso de romãs, com frutos suaves, de flores de alfena e nardos; nardo e açafrão, bambus aromáticos e canela, com todas as árvores de incenso; mirra e aloé, com todas as principais especiarias aromáticas.
(Rei Salomão à Sulamita, O cantar dos cantares)

Suas faces são como uma eira de espécies aromáticas, como fragrantes flores, como lírios que destilam mirra fragrante.
(Sulamita ao Rei Salomão).

Imagem: Brigitte Bardot, tirada da net.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Do meu Diário



...Cansei de não sentir,
Cansei de ser amante da monotonia,
De ser igual todo dia,
Quero o desalinho nos cabelos,
O brilhos nos olhos de quem amou,
Quero a fome depois do sexo,
a preguiça compartilhda na cama,
O desejo de ter desejo...

Imagem: tirada da net.

Eugénio de Andrade


"Os navios existem, e existe o teu rosto

encostado ao rosto dos navios.

Sem nenhum destino flutuam nas cidades,

partem no vento, regressam nos rios.



Na areia branca, onde o tempo começa,

uma criança passa de costas para o mar.

Anoitece. Não há dúvida, anoitece.

É preciso partir. É preciso ficar.



Os hospitais cobrem-se de cinza.

Ondas de sombra quebram nas esquinas.

Amo-te… E entram pela janela

as primeiras luzes das colinas.



As palavras que te envio são interditas

até, meu amor, pelo halo das searas;

se alguma regressasse, nem já reconhecia

o teu nome nas suas curvas claras.



Dói-me esta água, este ar que se respira,

dói-me esta solidão de pedra escura,

estas mãos nocturnas onde aperto

os meus dias quebrados na cintura.



E a noite cresce apaixonadamente.

Nas suas margens nuas, desoladas,

cada homem tem apenas para dar

um horizonte de cidades bombardeadas."

Imagem: Rita Hayworth, tirada da net.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nelson Rodrigues



“ Se eu pudesse - se os deuses permitissem –

teria assistido hoje ao seu despertar.

E, então, teria feito uma festa

de luz, de cor, de aroma.

Eu transportaria para tua alcova

toda a vibração musical da aurora,

todo o estremecimento solar.

E teria enfeitado os teus cabelos

com o mais lúcido e macio dos raios de luz;

e teria espargido sobre os teus ombros

o perfume mais suave da manhã;

e teria prendido no teu riso a pétala mais diáfana.

E, quando te levantasse,

eu faria com que pisasse rosas frescas e voluptuosas;

e assim teus pés teriam como que sandálias de perfume."

Imagem:Audrey Hepbum, tirada da net.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ramos Rosa



"Para um amigo
Tenho sempre um relógio esquecido
Em qualquer fundo de algibeira
Mas esse relógio
não marca o tempo inútil
São restos de tabaco e ternura rápida
É um arco-íris de sombra quente e trêmula
É um copo de vinho
Com o meu sangue
E o sol"

Ramos Rosa é um dos grandes poetas portugueses contemporâneos.
para ele, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta.


imagem tirada da net.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Castro Alves





"Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!...A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida :
'Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
'Virgem! - tu és a flor da minha vida!..."

Imagem: tirada da net

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Maria Bethânia


"Eu quero ser possuída por você,pelo seu corpo,
pela sua proteção, pelo seu sangue.
Me ama!
Eu quero que você me ame e fique eternamente me amando dentro de mim.
Com sua carne e o seu amor.
Eternamente, infinitamente dentro de mim
me envolvendo, me decifrando, me consumindo, me revelando...
Como uma tarde dentro do elevador, no verão, voltando da praia
e você me abraçou e eu te abracei...
E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo,
Mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos...
A vida inteira resumida só no desejo da tua boca dizendo o meu nome,
Da tua mão conduzindo a minha mão,
Do teu corpo revelando o meu corpo,
Como se o mundo fosse pela primeira vez,
Você o meu ponto de referência nessa cidade... "
Imagem: tirada da net
texto: José Vicente.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Rachael Yamagata





...Um cheiro, uma canção, um olhar que se
perde pode nos levar a um mundo deixado no
abrigo do passado. Dia chuvoso, rádio ligado e
um arrepio, um fogo tomando conta das entranhas.
Um vírus que ameaça contaminar sempre que acha uma
abertura. Nesta hora, me dou conta do quanto meu corpo
carece de sensações. Meu corpo hoje é só o abrigo da minha
alma. Posso alimentar minha alma, mas não posso ser o amante
desejado por ela. Nada substitui o beijo e o gosto de ser possuida,
ser pertencida...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mário Quintana


Toc... toc...
O passado me visitou ontem à noite.Veio
vestido com uma intenção de paz. Não o recebi
com assombro, afinal, minha alma não foi ferida
por ele. Mas por ser passado, não o convidei pra
entrar. Só abro a porta para o futuro.

É das gavetas do passado que tiro esse poema :

BILHETE

"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."

Mário Quintana

Imagem: tirada da net

Florbela Espanca



"Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
.
Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!
.
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...
.
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas... "

imagem: Marilyn Monroe, tirada de Net.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Álvaro de Campos




E de repente, ao folhear um livro, já amarelado pelo tempo, me deparo com minha alma descrita por um grande autor... Nesta hora, penso: este poema sou eu.


" Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra..."
Imagem: Álvaro de Campos, tirada da net

Clarice Lispector




"Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar..."

Imagem: Clarice Lispector, tirada da net.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Adélia Prado


Desejo

“Eu não quero a faca e o queijo,

eu quero a fome.”



" Como uma frase tão curta pode causar um impacto tão profundo? Desde que a li, esta afirmação ecoa na minha cabeça oca. A voz que só eu conheço constrói - nas entrelinhas - um mundo inteirinho. As respostas. Sei que lá estão. Mas só ouço o eco.

Eu quero a fome...

quero a fome...

a fome...

fome..."

Texto: terapia das palavras.
Imagem: autor desconhecido.

domingo, 30 de novembro de 2008

Borboletas


"A expressão borboletas no estômago é uma das minhas preferidas. Não porque eu esteja sempre com borboletas no estômago. Mas, justo pelo contrário. Sinto a falta delas. E só agora me dei conta.

Como tenho saudade de ter na barriga um montão de borboletas a farfalhar sandices românticas com o bater de suas mil asas!

Sinto-me uma nostálgica do futuro. [Deixa eu explicar, e você verá que é simples e mais comum do que pensa]. Eu simplesmente sinto saudade do que não aconteceu. Ainda. Uma falta de tudo o que eu poderia viver e ainda não experimentei, ainda não degustei, ainda não apreciei.

Não falo apenas dos relacionamentos amorosos. Aqui, eu falo da Vida. Falo da vida efervescente como fonte de água gasosa em eterno borbulhar – champanhe - é disso que eu falo e sinto muita [muita!] falta. Porque a vida é bela sim. E pede brindes de cristal [o copo e a bebida!] por uma tarde de sol fresco como a de hoje, dia de Lagoa com leves ondas incessantes no seu espelho, e olhares plácidos pela janela.

É lógico que sinto saudade das minhas borboletas baterem suas asas por um amor-com-pegada-vem-cá-Bebel. Também sinto falta disso - e como! Mas essas borboletas são arredias, quase selvagens, e não aparecem por qualquer-motivo-em-qualquer-florzinha-de-jardim.

Enquanto não tenho essas asas deliciosas a congestionar meus sentidos, acho que vou bebericar champanhe e ver a vida desfilar felinamente leve diante meus olhos crédulos. Porque eu sinto falta, mas não sou tola para deixar de ver a beleza que espreita este inverno-querendo-ser-primavera.

Dia desses, as borboletas voltam a farfalhar no meu jardim.
Elas sempre retornam."

Imagem: autor desconhecido
Texto: Bia.

Do meu Diário


" Pelo menos eu sabia quem eu era quando acordei de manhã,
mas acho que, desde então, mudei várias vezes."

Lewis Carroll



... E o que é a vida se
não uma fuga pra dentro
de nossos sonhos?



Imagem: autor desconhecido

sábado, 29 de novembro de 2008

Belchior


"eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle"

Mick Jagger

Fiz o caminho inverso com essa música, conheci primeiro a tradução, linda, envolvente, falando das chuvas de novembro, separação recente, enfim...vale a pena ouvi-la:


Ferreira Gullar


Traduzir-se

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte? "

Ferreira Gullar

Imagem: autor desconhecido






sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Do meu Diário



... Tenho medo de mexer em minhas gavetas de sentimentos velhos e eles pularem na minha cara e
implorarem pela liberdade. Nas minhas entranhas estão adormecidos muitos sentimentos. Alguns, velhos, inofensivos, dormem. Outros, que considero mortos, ainda tem em suas inscrições o perigo que foram em vida. Meu coração é velho, já foi criança e adolescente rebelde, ansioso por liberdade e vida desregrada. A vida pulsava diferente e irresponsável. Meu coração dirigia a minha
vida e quase me levou à morte. E de certa forma morri.Com tantas buscas, minhas andanças me levaram a lugares tristes e sombrios. Permaneci muito tempo no umbral. Como um espírito errante caminhei em busca do nada. Estava ali e queria me penitenciar. Meu maior pecado: amar desesperadamente a pessoa errada. Vivi relacionamentos destrutivos, vazios e sem planos. Não era de ninguém e ninguém era bom o sufuciente pra mim. Na verdade, me apoiava em pessoas que tinha certeza não me fariam apaixonar. Não as admirava e essa era a garantia que o amor não brotaria dentro de mim. Quanto menos eu queria, mais gente eu atraia. A noite era perfeita para eu viver essa busca do nada...

Imagem: autor desconhecido.

Descobertas

"... Descobri que meu
corpo é borboleta
que flui no ar, leve e
colorida e sente púrpuras
que não podem ser humanas..."

Fadas

" Fadas perfumadas
jogavam vinho na minha
pele e cantavam palavras
difíceis de poemas inventados
minuto a minuto..."

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Lya Luft



Hoje eu sou esses versos de Lya Luft:


" ... Estou no coração de um ciclo que se fecha, eu sou o mar, com peixes e medusas, sou a viagem também. Não há garantias, não existe segurança. Alguma vez é preciso a audácia de se jogar, de delirar... "


Do meu Diário


... Estou trocando as folhas
Sinto o barulho delas
Caindo no chão.
É outono dentro de mim...

Cinema Paradiso

Simplesmente maravilhoso, imperdível.


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Carlos Drummond de Andrade




"O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado"

Imagem: autor desconhecido.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Ana Carolina * Vitor Ramil

À noite meu espírito voa na realização dessa
música:

"Olho a cidade ao redor
E nada me interessa
Eu finjo ter calma
A solidão me apressa

Tantos caminhos sem fim
De onde você não vem
Meu coração na curva
Batendo a mais de cem

Eu vou sair nessas horas de confusão
Gritando seu nome entre os carros que vêm e vão
Quem sabe então assim
Você repara em mim












Corro de te esperar
De nunca te esquecer
As estrelas me encontram
Antes de anoitecer

Olho a cidade ao redor
Eu nunca volto atrás
Já não escondo a pressa
Já me escondi demais

Eu vou contar pra todo mundo
Eu vou pichar sua rua
Vou bater na sua porta de noite
Completamente nua
Quem sabe então assim
Você repara em mim"

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Teatro Mágico


O Anjo Mais Velho

Um grupo que canta com a alma, arte pura.

Composição: Fernando Anitelli

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar..."

imagem: autor desconhecido





domingo, 23 de novembro de 2008

Mia Couto

Esse poema é o retrato vivo do que estou vivendo nesse momento da minha vida:

"Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinzas
e despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente."


Imagem: autor desconhecido.

sábado, 22 de novembro de 2008

Sophia de Mello Breyner


"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."

Elisa Lucinda

Elisa Lucinda
No elevador do filho de Deus

"A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção
de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas

Há porradas que não tem saída
há um monte de "não era isso que eu queria"
Outro dia, acabei de morrer
depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação...
E quando penso que não
me vejo ressurgida no banheiro
feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala
nem informática nem cabala
eu era uma espécie de Lázara
poeta ressucitada
passaporte sem mala
com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
ensaiar mil vezes a séria despedida
a morte real do gastamento do corpo
a coisa mal resolvida
daquela morte florida
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos
cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos
que já to ficando especialista em renascimento

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho
ou porque eu não concordo
Ou uma bela puxada no tapete
ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo...
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha...
Fico aí camisolenta em estado de éter
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa
não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda
uma espécie de encomenda que a gente faz
pra ter depois ter um produto com maior resistência
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)
e fica feito a justiça: cega
Depois acorda bela
corta os cabelos
muda a maquiagem
reinventa modelos
reencontra os amigos que fazem a velha e merecida
pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de expersona falida:
- Não, tava só deprimida.
"


Imagem: autor desconhecido

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Claudio Zoli

Claudio Zoli

Noite do Prazer

"A noite vai ser boa
boa!
De tudo vai rolar
Vai rolar!
De certo que as pessoas
Querem se conhecer
Olham e se beijam
Numa festa genial...


A madrugada, a vitrola
Rolando um blues
Tocando B.B.King sem parar
Sinto por dentro uma força
Vibrando uma luz
A energia que emana
De todo prazer...

Prazer em estar contigo
Um brinde ao destino
Será que o meu signo
Tem a ver com o seu?
Vem ficar comigo
Depois que a festa acabar...

A madrugada, a vitrola
Rolando um blues
Tocando B.B.King sem parar
Sinto por dentro uma força
Vibrando uma luz
A energia que emana
De todo prazer..."



"O Fabuloso Destino de Amélie Poulain"

Lindo,maravilhoso:

O Mundo de Sofia


Uma leitura deliciosa... daquelas que a imaginação é constatemente desafiada, um leque de possibilidades se abre à nossa frente, com certeza, uma viagem fantástica.

" Sofia Amudsen, personagem central de O Mundo de Sofia, é uma jovem estudante que vê a sua vida mudar completamente por conta de cartas anônimas com as mais diversas questões existenciais: Quem é você? De onde você vem? Como começou o mundo? Ao escrever de forma nada erudita, com narrativas em estilo romancista, o escritor Jostein Gaarder nos conduz ao fantástico mundo da história da filosofia e o que se apresentava antes como intangível e misterioso se revela diante de nossos olhos como fascinante e indispensável."

Imagem: autor desconhecido.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Mário Quintana



Certezas


"Não quero alguém que morra de amor por mim...

Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...

Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...

Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...

Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um NÃO que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como SIM.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena."
Mario Quintana

Imagem: autor desconhecido.

Quando me amei de verdade!



"Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu
estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, meu
sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra as
minhas verdades.
Hoje sei que isso é... Autenticidade.


Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente
e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento .
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.


Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar
alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo
sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu
mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.


Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse
saudável ... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para
baixo.
De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.


Quando me amei de verdade, deixei de temer meu tempo livre e desisti de
fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio
ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.


Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso,
errei muito menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me
preocupar com o Futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida
acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.


Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me
decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração,
ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é.... Saber viver!!! "

Lenine



Hoje eu Quero Sair Só

Lenine

Se você quer me seguir
Não é seguro
Você não quer me trancar
Num quarto escuro
Às vezes parece até
Que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só...

Você não vai me acertar
À queima-roupa
Vem cá, me deixa fugir
Me beija a bôca
Às vezes parece até
Que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só...

Não demora eu tô de volta
(Tchau!)
Vai ver se eu tô lá na esquina
Devo estar!
(Tchau!)
Já deu minha hora
E eu não posso ficar
(Tchau!)
A lua me chama
Eu tenho que ir prá rua
(Tchau!)
A lua me chama
Eu tenho que ir prá rua...

Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!

Huuuum!
Você não vai me acertar
À queima-roupa, naum!
Vem cá, me deixa fugir
Me beija a bôca
Às vezes parece até
Que a gente deu um nó
Hoje eu quero sair só...

Não demora eu tô de volta
(Tchau!)
Vai ver se eu tô lá na esquina
Devo estar!
(Tchau!)
Já deu minha hora
E eu não posso ficar
(Tchau!)
A lua me chama
Eu tenho que ir prá rua
(Tchau!)
A lua me chama
Eu tenho que ir prá rua
(Tchau!)

Vai ver se eu tô lá na esquina
Devo estar!
(Tchau!)
Já deu minha hora
E eu não posso ficar
(Tchau!)
A lua me chama
Eu tenho que ir prá rua
(Tchau!)
A lua me chama, chama...

Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!
Tchau! Tchau!
Tchau! Tchau!

A lua me chama
(Tchau!)
Eu tenho que ir prá rua
(Tchau!)
A lua me chama
Eu tenho que ir prá rua...

Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!
Hoje eu quero sair só!"



Imagem: autor desconhecido.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O Labirinto do Fauno

"O longa dirigido por Guillermo Del Toro (HellBoy, A Espinha do Diabo) é uma obra fascinante. Cada elemento está minuciosamente bem colocado dentro do filme, sem excessos e o mais importante, em prol da estória. O diretor contextualiza com destreza o clima da ascensão de Franco ao poder na Espanha e a implacável caça aos esquerdistas contrários ao regime. Mesmo quem desconhece este capítulo da história espanhola compreende o pano de fundo no qual a trama se passa, vide a habilidade da direção e a pontualidade do roteiro.

Del Toro trabalha com perspicácia as personagens coadjuvantes, enriquecendo assim o teor dramático e elevando a qualidade do filme. Observamos o drama da cozinheira Mercedez (Maribel Verdú), a vilania do capitão Vidal (Sergi López) e o estupendo embate violento entre os dois. O drama social espanhol possui uma pungência que por si só renderia um outro filme.

É delicioso ver efeitos especiais e maquiagem trabalhados com sutileza. Hoje, parece estar em moda as explosões visuais - quanto mais efeito e maquiagem, melhor. Perceba como o efeito, apropriado e bem realizado, dá vida ao inseto que persegue Ofélia e se torna, em um passe de mágica, uma fada. A maquiagem do fauno (Doug Jones) é memorável e digna de indicação ao Oscar.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sophia de Mello Breyner


“Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.”

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Alejandro Sanz

Noite, um copo de vinho e ...

Alberto Caeiro

Este vídeo guarda um dos meus poemas favoritos:

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe...
Ouçam:

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Miguel Torga


"Pisa os meus versos, Musa insatisfeita!
Nenhum deles te merece.
São frutos acres que não apetece
Comer.
Falta-lhes génio, o sol que amadurece
O que sabe nascer.

Cospe de tédio e nojo
Em cada imagem que te desfigura.
Nega esta rima impura
Que responde de ouvido.
Denuncia estas sílabas contadas,
Vestígios digitais do evadido
Que deixa atrás de si as impressões marcadas.

E corta-me de vez as asas que me deste.
Mandaste-me voar;
E eu tinha um corpo inteiro a recusar
Esse ímpeto celeste."

Imagem: autor desconhecido