terça-feira, 18 de agosto de 2009

Raimundo Gadelha


Ato de contrição


Perdoe-me
por chegar assim, tão de repente
e encontrar-te assim, tão desprevenida

Perdoe-me
por não te dar tempo de me conheceres inteiro,
mas apenas o tempo inteiro tentar ser tudo aquilo
que – sei – tu gostarias que eu fosse

Perdoe-me
por tão subitamente adentrar teu corpo,
tenda, templo do espírito,
sem antes deter-me em cada detalhe
Bater à porta com suavidade
Encantar-me com os vasos na janela
Sentir todos os cheiros
e, devagar, ir penetrando com um sorriso

Perdoe-me
por, já dentro de ti, ter esquecido do essencial
Não ter percebido o quadro pendurado na parede
Não ter regulado o oxigênio dos peixes dourados no aquário
Não ter falado do retrato amarelado na mesa de cabeceira
Não ter me emocionado com o velho gramofone no canto da sala
e não ouvir as belas e tristes canções por ti sussurradas

Perdoe-me
por, ainda dentro de tua casa – tão próximo de tua alma –
não ter percorrido com brandura todos os cômodos,
mas apenas comodamente ter seguido meu próprio caminho

Perdoe-me
por, assim sozinho, tão impróprio ter sido,
quando melhor teria sido deixar que naturalmente fôssemos

Perdoe-me
por assim partir, deixando apenas inconsistência
em múltiplas formas de sonhos e esperanças

Perdoe-me, perdoe-me.


Raimundo Gadelha

3 comentários:

Marcia Mattoso disse...

Muito bom!!!
Gadelha é realmente um homem especial...

Patrícia Namitala disse...

Lindo o poema! Estive ontem no Palácio das Artes - BH/MG e me encantei com a poesia de Gadelha!! E claro com o projeto gráfico da Escrituras Editora!!

Fernanda Matos disse...

RESUMIDAS IMPRESSÕES: Vida Útil do Tempo, Raimundo Gadelha

Por Fernanda Matos

Vida Útil do Tempo:
Vida Útil, tudo - eu vivo.
Tempo inútil, as lamúrias – eu choro.
O tempo cura tudo – eu espero.
Simplesmente – eu imploro.

Amor e o tempo:
Edificante felicidade – eu busco.
Espelhos embaçados, a dor – eu tento ver.
Desenho da ausência – eu esboço.
Sem motivos e apesar dos sonhos – eu justifico.
Questão de tempo, vida cíclica – eu barganho.
Resíduos residenciais, creme ou amarelo? Frio – eu resto.
Posta restante, insistente humilhação – eu, a negação.
Dualidade, o bom e o ruim juntos – eu, a realidade.
A mulher do binóculo, não há nada perto – eu defendo.
Chamada não atendida, de madrugada – eu não atendo.
Tristura, triste feiúra – eu adentro a mistura e o mistério.
Cultivo, no barril de carvalho – eu me maturo presa ao tempo.
Mescla de Verde e Azul, entre o ver e o sentir – eu, a aceitação.
Fotos coloridas, fechadas velhas gavetas – eu entreabro gavetas vazias.
Pleno sentido – eu sorrio também.

Tempo e Memória:
Cigano vento, leva e traz – eu viajo.
No olhar do cavalo quase morto – eu sobrevivo.
Refração, o absoluto que nunca se repetirá – eu relativizo.
Luz e sombra, você me apagou – eu ilumino.
Exercício, a espera sem esforço – eu me esforço.
Asas da memória, antigas tristes histórias – eu as levo embora.
Soledade, do que não passou – eu, saudade.
Quintais, mães trabalham, pais não estão – eu estendo outras cobertas.
Trajetórias, linhas cruzadas – eu tenho as minhas.
Sumidouro, casa de espelhos, mansão do terror – eu me transformo.
Nau frágil, sentir – eu me fortaleço.
Estampa no não ter sido, nós fomos – eu estanco a ferida.
Instante, segredos do tempo – eu cicatrizo.
Efêmero, até mosca passa – eu passei.
Olhar, de pedra laminada ou sedimentada – eu marco o tempo.
Momento em lentes espelhadas, reflexos – eu embranqueço.
Átimo, átomo, parte do todo – eu atino.
Tempo, templo de saudade, passado – eu, presente.
Inserção, pulga de vira-lata – eu, universo.
O pensamento, o que pensar? – eu sinto.
Devaneio, passeio sem rumo – eu freio.
Palavras e Pigmentos, amor, adeus – eu amaldiçôo.
Suspeições, suspensões – eu peço altas.
Brinco, na orelha – eu escuto.
Cristal, frágil e colorido – eu cristalino.
Vida Útil do Tempo – eu temporizo.