domingo, 30 de novembro de 2008

Borboletas


"A expressão borboletas no estômago é uma das minhas preferidas. Não porque eu esteja sempre com borboletas no estômago. Mas, justo pelo contrário. Sinto a falta delas. E só agora me dei conta.

Como tenho saudade de ter na barriga um montão de borboletas a farfalhar sandices românticas com o bater de suas mil asas!

Sinto-me uma nostálgica do futuro. [Deixa eu explicar, e você verá que é simples e mais comum do que pensa]. Eu simplesmente sinto saudade do que não aconteceu. Ainda. Uma falta de tudo o que eu poderia viver e ainda não experimentei, ainda não degustei, ainda não apreciei.

Não falo apenas dos relacionamentos amorosos. Aqui, eu falo da Vida. Falo da vida efervescente como fonte de água gasosa em eterno borbulhar – champanhe - é disso que eu falo e sinto muita [muita!] falta. Porque a vida é bela sim. E pede brindes de cristal [o copo e a bebida!] por uma tarde de sol fresco como a de hoje, dia de Lagoa com leves ondas incessantes no seu espelho, e olhares plácidos pela janela.

É lógico que sinto saudade das minhas borboletas baterem suas asas por um amor-com-pegada-vem-cá-Bebel. Também sinto falta disso - e como! Mas essas borboletas são arredias, quase selvagens, e não aparecem por qualquer-motivo-em-qualquer-florzinha-de-jardim.

Enquanto não tenho essas asas deliciosas a congestionar meus sentidos, acho que vou bebericar champanhe e ver a vida desfilar felinamente leve diante meus olhos crédulos. Porque eu sinto falta, mas não sou tola para deixar de ver a beleza que espreita este inverno-querendo-ser-primavera.

Dia desses, as borboletas voltam a farfalhar no meu jardim.
Elas sempre retornam."

Imagem: autor desconhecido
Texto: Bia.

Do meu Diário


" Pelo menos eu sabia quem eu era quando acordei de manhã,
mas acho que, desde então, mudei várias vezes."

Lewis Carroll



... E o que é a vida se
não uma fuga pra dentro
de nossos sonhos?



Imagem: autor desconhecido

sábado, 29 de novembro de 2008

Belchior


"eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle"

Mick Jagger

Fiz o caminho inverso com essa música, conheci primeiro a tradução, linda, envolvente, falando das chuvas de novembro, separação recente, enfim...vale a pena ouvi-la:


Ferreira Gullar


Traduzir-se

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte? "

Ferreira Gullar

Imagem: autor desconhecido






sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Do meu Diário



... Tenho medo de mexer em minhas gavetas de sentimentos velhos e eles pularem na minha cara e
implorarem pela liberdade. Nas minhas entranhas estão adormecidos muitos sentimentos. Alguns, velhos, inofensivos, dormem. Outros, que considero mortos, ainda tem em suas inscrições o perigo que foram em vida. Meu coração é velho, já foi criança e adolescente rebelde, ansioso por liberdade e vida desregrada. A vida pulsava diferente e irresponsável. Meu coração dirigia a minha
vida e quase me levou à morte. E de certa forma morri.Com tantas buscas, minhas andanças me levaram a lugares tristes e sombrios. Permaneci muito tempo no umbral. Como um espírito errante caminhei em busca do nada. Estava ali e queria me penitenciar. Meu maior pecado: amar desesperadamente a pessoa errada. Vivi relacionamentos destrutivos, vazios e sem planos. Não era de ninguém e ninguém era bom o sufuciente pra mim. Na verdade, me apoiava em pessoas que tinha certeza não me fariam apaixonar. Não as admirava e essa era a garantia que o amor não brotaria dentro de mim. Quanto menos eu queria, mais gente eu atraia. A noite era perfeita para eu viver essa busca do nada...

Imagem: autor desconhecido.

Descobertas

"... Descobri que meu
corpo é borboleta
que flui no ar, leve e
colorida e sente púrpuras
que não podem ser humanas..."