sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Quase, Sarah Westphal


"Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."

Imagem: autor desconhecido.

Antonio Ramos Rosa



"Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera."

Imagem: autor desconhecido.

Madonna "Give It 2 Me"

Pablo Neruda


"Não eras para os meus sonhos, não eras para a minha vida, nem para os meus cansaços perfumados de rosas, nem para a impotência da minha raiva suicida, não eras a bela e doce, a bela e dolorosa.
Não eras para os meus sonhos, não eras para os meus cantos, não eras para o prestígio dos meus amargos prantos, não eras para a minha vida nem para a minha dor, não eras o fugitivo de todos os meus encantos.
Não merecias nada. Nem o meu áspero desencanto nem sequer o lume que pressentiu o Amor.
Bem feito, é muito bem feito que tenhas passado em vão que a minha vida não se tenha submetido ao teu olhar, que aos antigos prantos se não tenha juntado a amargura dolente de um estéril chorar.

Tu eras para o imbecil que te quisesse um pouco. (Oh! meus sonhos doces, oh meus sonhos loucos!)
Tu eras para um imbecil, para um qualquer que não tivesse nada dos meus sonhos, nada, mas que te daria o prazer animal o curto e bruto gozo do espasmo final.
Não eras para os meus sonhos, não eras para a minha vida nem para os meus quebrantos nem para a minha dor, não eras para os prantos das minhas duras feridas, não eras para os meus braços, nem para a minha canção.'

Imagem: autor desconhecido

Caio Fernando Abreu

Ensinamentos de uma alma poeta:


"Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar."


"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas... Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo."

"Podia falar de quando te vi pela primeira vez.
Sem jeito, de repente, te vi (assim, como se não fosse ver nunca mais).
E seria bom que eu não tivesse visto nunca mais, porque de repente vi outra vez e outra vez e outra e, enquanto eu te via, nascia um jardim nas minhas faces.
Não me importo de ser vulgar, não me importa o lugar-comum, dizer o que os outros já disseram.
Não tenho mais nada a resguardar - um momento à beira de não ser, eu não sou mais.
Tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava, tudo caia num espaço enorme entre eu e você, mas não se culpe, deixa eu falar como se você não soubesse, não se culpe, por favor, não se culpe.
Ainda que esse som na campainha fosse gerado pelos teus dedos eu não atenderia.
Eu me recuso a ser salvo e é tão estranho... o entorpecimento começa pelos pés..."


"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'.
Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”.


"Seria isso, então? Você só consegue dar quando não é solicitado, e quando pedem algo você foge em desespero. Como se tivesse medo de ficar mais pobre, medo de que se alcance seu centro e nesse centro exista alguma coisa que você não quer mostrar nem dar ou dividir. Contido, dissimulado, você esconde essa coisa, será assim?"

Imagem: autor desconhecido.

Trechos de Crônica da Casa Assassinada

Madrugada de sexta- feira... vento soprando lá fora e eu presa pela trama maravilhosa desse livro que me supreende a cada nova leitura, eis um pouco do mundo pelo qual viajei:


" ... E era como se do fundo dele subisse de um jato a água estagnada e preta de sua paixão... sem tê-lo visto ainda, adivinhava sua presença por trás de mim, e o galope do seu coração. Nem sequer me voltei, juro, mas no decorrer da noite, como se tivessem poder para varar as paredes, senti durante todo o tempo suas pupilas que me acompanhavam, e eram as pupilas de um louco, de um homem com sede e com fome, sem coragem para tocar no alimento que se achava diante dele. Minha mão esmorece, a pena tomba. É inútil descrever-lhe que espécie de demônio você tem em casa."

" ... Ali você se refugiará com sua certeza, e cavará minha sepultura com mãos desfiguradas e sem alma."


"... Morremos quase sempre da crueldade ignorada dos seres que nos cercam."

Imagem: autor desconhecido.