sexta-feira, 17 de julho de 2009

Cecília Meireles


Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,

olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe:
medusas da alta noite e espumas breves.

Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,

vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.

Êxtase longo de ilusão nenhuma.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Paulo Leminski

Contranarciso

Em mim
Eu vejo o outro
E outro
E outro enfim dezenas
Trens passando
Vagões cheios de gente
Centenas
O outro
Que há em mim
É você
Você
E você

Assim como

Eu estou em você
Eu estou nele
Em nós
E só quando
Estamos em nós
Estamos em paz

Paulo Lemins

domingo, 12 de julho de 2009

Osho

"Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano, ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada: os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê a sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira.
O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência.
Você pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano. Mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento. "
Osho

Hilda Hilst

"...Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
e sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam..."

Hilst,Hilda.Da noite.

Hilda Hilst

"...Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade..."

Hilst, Hilda. Do desejo.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ferreira Gullar


" A manhã apaga

As perguntas da noite

As coisas são claras

As coisas são sólidas

O mundo se explica só por existir

A memória dorme

O presente ri..."

Calderón de la Barca

"... Que é a vida ? Um frenesi.

Que é a vida ? Uma ilusão,

Uma sombra, uma ficção.

E o maior dos bens é pequeno,

Porque toda a vida é um sonho

E os sonhos só sonhos são..."