domingo, 25 de janeiro de 2009

Fernando Pessoa




“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.”

Jorge de Lima

A Multiplicação da Criatura

parece, senhor , que me desdobrei .
que me multipliquei,
que a chuva dos céus cai dentro de minhas mãos ,
que os ruídos do mundo gemem nos meus ouvidos,
que batem trigo , chorando , sobre o meu tronco nu,
que cidades se incendeiam dentro de minhas órbitas .
parece , senhor que as noites escurecem dentro do meu ser multiplo ,
que eu falo sem querer por todos meus irmãos ,
que eu ando cada vez mais a procura de ti .
parece, senhor, que tu me alongaste os braços
à procura de abóbadas raras e iluminadas ,
que me estiraste os pés repousantes no limbo,
que os pássaros cansados em meu ombro repousam
sem saber que o espantalho é a semelhança tua .
parece que em minhas veias
correm rios noturnos
em que barqueiros remam contra marés montantes.
parece que em minha sombra
o sol desponta e se deita ,
e minha sombra e meu ser
valem um minuto em ti.

Elliot Gould

Ninguém pode ser escravo de sua identidade: quando surge uma possibilidade de mudança é preciso mudar.

sábado, 24 de janeiro de 2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Palavras riscadas em um livro velho

"...Três coisas, eu tinha três coisas pra resolver. Ladrilhar a rua, se fosse minha, pegar o ouro, houvesse arco-íris e chorar até o fim da tarde..."


" ... Sou a luta entre um homem acabado e um outro homem que está andando no ar..."
Murilo Mendes

"...Escrevo para me tornar invisível, para perder a chave do abismo..."

Do pensamento dos outros

"...É que no fundo, a gente é isso mesmo: uma vontade de ir, outra de ficar. Algo que quer emergir, coisa que quer ancorar. Barco que sonha partir, remo que afunda no mar. É um jogo de forças, opostas. Uma mão que impede, outra que chama. A direita estende o veneno, a esquerda, o antídoto. Algo procura a saída, o que me salva, o que me ceda. Algo se detona e resigna, pára na estrada. Um corpo prostrado..."

Murilo Mendes

Vocação do Poeta

Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas
Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal e o bem.
Vim para amar e ser desamado.
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos
Não vim para construir a minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.
Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.
Vim para experimentar dúvidas e contradições.

Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.
Vim para distribuir inspiração às musas.
Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,
E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.