sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Maria Bethânia


"Eu quero ser possuída por você,pelo seu corpo,
pela sua proteção, pelo seu sangue.
Me ama!
Eu quero que você me ame e fique eternamente me amando dentro de mim.
Com sua carne e o seu amor.
Eternamente, infinitamente dentro de mim
me envolvendo, me decifrando, me consumindo, me revelando...
Como uma tarde dentro do elevador, no verão, voltando da praia
e você me abraçou e eu te abracei...
E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo,
Mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos...
A vida inteira resumida só no desejo da tua boca dizendo o meu nome,
Da tua mão conduzindo a minha mão,
Do teu corpo revelando o meu corpo,
Como se o mundo fosse pela primeira vez,
Você o meu ponto de referência nessa cidade... "
Imagem: tirada da net
texto: José Vicente.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Rachael Yamagata





...Um cheiro, uma canção, um olhar que se
perde pode nos levar a um mundo deixado no
abrigo do passado. Dia chuvoso, rádio ligado e
um arrepio, um fogo tomando conta das entranhas.
Um vírus que ameaça contaminar sempre que acha uma
abertura. Nesta hora, me dou conta do quanto meu corpo
carece de sensações. Meu corpo hoje é só o abrigo da minha
alma. Posso alimentar minha alma, mas não posso ser o amante
desejado por ela. Nada substitui o beijo e o gosto de ser possuida,
ser pertencida...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mário Quintana


Toc... toc...
O passado me visitou ontem à noite.Veio
vestido com uma intenção de paz. Não o recebi
com assombro, afinal, minha alma não foi ferida
por ele. Mas por ser passado, não o convidei pra
entrar. Só abro a porta para o futuro.

É das gavetas do passado que tiro esse poema :

BILHETE

"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."

Mário Quintana

Imagem: tirada da net

Florbela Espanca



"Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
.
Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!
.
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...
.
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas... "

imagem: Marilyn Monroe, tirada de Net.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Álvaro de Campos




E de repente, ao folhear um livro, já amarelado pelo tempo, me deparo com minha alma descrita por um grande autor... Nesta hora, penso: este poema sou eu.


" Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra..."
Imagem: Álvaro de Campos, tirada da net

Clarice Lispector




"Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar..."

Imagem: Clarice Lispector, tirada da net.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Adélia Prado


Desejo

“Eu não quero a faca e o queijo,

eu quero a fome.”



" Como uma frase tão curta pode causar um impacto tão profundo? Desde que a li, esta afirmação ecoa na minha cabeça oca. A voz que só eu conheço constrói - nas entrelinhas - um mundo inteirinho. As respostas. Sei que lá estão. Mas só ouço o eco.

Eu quero a fome...

quero a fome...

a fome...

fome..."

Texto: terapia das palavras.
Imagem: autor desconhecido.