segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Adriana Calcanhoto

Não é o melhor vídeo.
Mas definivamente, eu preciso postá-lo:
Há poucas coisas dele que não posso dizer, que faça
parte de um episódio real da minha história:








"Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua familia

Eu vou escrever no seu muro
e violentar o seu rosto
Eu quero roubar no seu jogo
Eu ja arranhei os seus discos

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

Nada ficou no lugar
Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua alma
Queria falar sua lingua

Eu vou publicar seus segredos
Eu vou Mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos
o resto da minha alegria

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim"







Mentiras - Adriana Calcanhoto

Guns N' Roses



Chuva De Novembro

Quando olho nos seus olhos
Vejo um amor contido
E, querida, quando a abraço
Sabe que sinto a mesma coisa?

Nada dura para sempre,
nós dois sabemos que o coração pode mudar
é difícil manter acesa a chama
Na chuva fria de novembro.

Estou vivendo este drama por um longo tempo
Tentando me livrar da dor
porém, sei que amantes sempre vêm e vão
ninguem ao certo sabe quem está deixando quem
Ir embora

Se pudéssemos, eu e você
dar um tempo
Eu poderia esfriar a cabeça
sabendo que você seria minha
toda minha
Então, se quiser me amar,
querida, não se reprima
senão vou terminar indo embora
Na chuva fria de novembro.

precisa de um tempo... para ficar solitária?
precisa ficar um tempo... sozinha?
Todos precisam às vezes... ficar solitários.
não acha que deve ficar um tempo... sozinha?

Eu sei que é difícil manter um coração aberto
Quando mesmo os amigos parecem dispostos a te prejudicar.
Mas se você pudesse curar um coração partido,
O tempo não pararia para te encantar?

Às vezes eu preciso de um tempo... para mim mesmo.
Às vezes eu preciso de um tempo... totalmente sozinho.
Todos precisam de um tempo... para si mesmo.
Você não entende que precisa de um tempo... totalmente sozinha?

E quando seus temores se acalmarem
E as sombras ainda permanecerem,
Eu sei que você pode me amar
Quando não sobrar ninguém para culpar.

Então não se preocupe com a escuridão,
Nós ainda podemos encontrar um caminho.
Porque nada dura para sempre,
Nem mesmo a chuva fria de novembro.

Você não acha que precisa de alguém?
Você não acha que precisa de alguém?
Todos precisam de alguém.
Você não é a única.
Você não é a única.

O Cavaleiro e o Moinho

“E quando me dizias, meio tonto, que a solidão te comovia e te chamava, eu comecei a gritar por dentro, e só conseguia silenciar e implodir. E se eu dissesse tudo o que eu queria ao mesmo tempo que silenciasse na tua solidão, talvez eu conseguisse um pouco mais de paz, essa paz tão caótica a que tu sempre aspiraste. Mas não, eu só consegui fugir, fugir, fugir, correr o tempo todo de mim, o mais rápido que a minha lentidão podia e eu não podia, não podia correr dos teus olhos, do cheiro de pele, do choro da pele. ‘Acreditar na existência dourada do sol, mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite. Arrebentar a corrente que envolve o amanhã, despertar as espadas, varrer as esfinges das encruzilhadas’. Eu só podia permanecer ali, naquele banco sob os galhos cujas folhas já caíram há tempos, balbuciando o que eu não compreendia. ‘Todo esse tempo foi igual a dormir no navio, sem fazer movimento, mas descendo o fio da água e do vento’. Se a gente ainda tivesse nascido pela metade, como dizem, mas somos inteiros, eu era inteira: por que me partiste em cacos assim? Acho que vai começar a chover, eu sinto o cheiro da chuva. Me diz, o que eu faço agora? Hein? Agora que a tua solidão te chamou e preferiste qualquer resto de coisa a mim, o que eu faço agora? O que eu faço agora com todas as minhas vontades de nós, com todos os meus nós, com todas as minhas vontades? E o meu amor? O que eu faço do meu amor? Deixo a chuva levar, jogo fora enquanto estiver correndo e eu já corri tanto, meu amor. E o que eu somo à minha metade pra fazê-la inteira de novo? "Já não há mais moinhos como os de antigamente"

"O cavaleiro e os moinhos - Elis Regina"

Vinicius de Moraes




O Haver

Vinicius de Moraes


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/1962


A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.

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Imagem: autor desconhecido

Do meu Diário



Como posso querer ser a âncora que
prende os sonhos dela?

Sergio Jockymann


"Pois, desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado,
E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos e que, mesmo maus e inconseqüentes,
sejam corajosos e fiéis,

E que em pelo menos um deles você possa confiar, que confiando,
não duvide de sua confiança.


E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas
E que entre eles haja pelo menos um que seja justo,
para que você não se sinta demasiadamente seguro.


Desejo, depois, que você seja útil, não insubstituivelmente útil, mas razoavelmente útil.
E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante, não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente,

E que essa tolerância não se transforme em aplauso nem em permissividade,
Para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.

Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais e que, sendo maduro,
não insista em rejuvenescer e que, sendo velho, não se dedique a desesperar.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.

Desejo, por sinal, que você seja triste, mas não o ano todo,
nem em um mês e muito menos numa semana, mas apenas por um dia.
Que nesse dia de tristeza você descubra que o riso diário é bom,
que o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

(...)

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático.
E que, pelo menos uma vez por ano, você ponha uma porção dele na sua frente e diga:
Isso é meu. Só para que fique bem claro quem é dono de quem.

Desejo ainda que você seja sóbrio, não inteiramente sóbrio,
não obcecadamente sóbrio, mas apenas usualmente sóbrio.
Mas que essa sobriedade não impeça você de abusar quando o abuso se impõe.

Desejo também que nenhum dos seus afetos morra, por ele e por você.
Mas que, se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.

Desejo, por fim, que sendo mulher você tenha um bom homem,
E que sendo homem, tenha uma boa mulher.
E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez,
E novamente, de agora até o próximo ano acabar,
E que quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda tenham amor para recomeçar.

E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar."

Caio Fernando Abreu

"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”.


"Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …"
Caio Fernando Abreu